As Melhores Jornalistas

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Por: Danielle Ramos

 

Fonte site canelaneles.com.br

Pesquisa realizada durante Trabalho de Conclusão de Curso no curso de Comunicação Social – Jornalismo

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INTRODUÇÃO

O Brasil é um estado democrático, composto pelos três poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário. Fazendo alusão a esse conceito, surgiu a expressão, “o quarto poder”, referindo-se à mídia e sua capacidade de interferir na opinião pública. A veiculação de matérias que denunciam corrupção e escândalos políticos é corriqueira na imprensa brasileira. Exemplo disso foi o “Mensalão do PT”, “Nepotismo na família Sarney”, e recentemente, aquelas que envolveram o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, parlamentares e empresários da Capital.

Em 27 de novembro de 2009, a Polícia Federal deflagrou a “Operação Caixa de Pandora”, que posteriormente culminou no “Mensalão do DEM”. Durante as investigações foi descoberto um suposto esquema de propina envolvendo políticos de Brasília. O caso tomou proporções inimagináveis quando o site Último Segundo disponibilizou, na internet, vídeos que exibiam imagens que deixaram a sociedade perplexa. Deputados foram flagrados guardando dinheiro nas meias, bolsas e paletós.

O governador do DF foi acusado de ser o mentor de todo esquema de corrupção, e meses após a deflagração, foi detido preventivamente para não atrapalhar as investigações, sob fortes indícios de tentar subornar uma testemunha. 

Nesse contexto, esta pesquisa tem como principal objetivo, analisar o enquadramento da cobertura jornalística no escândalo político deflagrado pela “Operação Caixa de Pandora”. Serão analisados os sites de notícias dos jornais Correio Braziliense e Estadão, a fim de desvendar o posicionamento de cada um deles, durante a veiculação de matérias sobre o escândalo.

O corpus da análise foi coletado em três momentos distintos. A primeira subamostra cobre o período entre os dias 27 de novembro e 2 de dezembro de 2009, ou seja, da deflagração da Operação da Polícia Federal até o momento em que estudantes invadiram a Câmara Legislativa do Distrito Federal. A segunda subamostra de 5 a 9 de janeiro de 2010, momento em houve a primeira reunião do ano, entre governador e secretários, até o retorno dos deputados distritais à Câmara Legislativa do Distrito Federal. A terceira subamostra retrata o período entre os dias 8 e 12 de fevereiro de 2010, da tentativa de suborno ao momento mais marcante, a primeira prisão de um governador em exercício no Brasil.

Na prática, a verdade dos fatos prevalece? Em se tratando de assuntos políticos a polêmica é ainda maior. Nos Estados Unidos o tema é amplamente debatido entre os jornalistas. No livro, Os Elementos do Jornalismo, profissionais preocupados com o futuro da profissão, que vinha perdendo a credibilidade de seu público, debateram acerca do assunto e enumeraram nove pontos para melhorar a execução da difícil tarefa de informar:

A primeira obrigação do jornalismo é com a verdade;
Sua primeira lealdade é com os cidadãos;
Sua essência é a disciplina da verificação;
Seus praticantes devem manter independência daqueles a quem cobrem;
O jornalismo deve ser um monitor independente do poder;
O jornalismo deve abrir espaço para críticas e o compromisso público;
O jornalismo deve empenhar-se para apresentar o que é significativo de forma interessante e relevante;
O jornalismo deve apresentar as notícias de forma compreensível e proporcional;
Os jornalistas devem ser livres para trabalhar de acordo com a sua consciência (KOVACH E ROSENSTIEL, 2003, p.22).

No Brasil, algumas pesquisas sobre cobertura jornalística são encontradas, principalmente, análises de revistas semanais. A presente pesquisa justifica-se, pela necessidade no campo acadêmico de análises embasadas no “enquadramento”, explorado timidamente.

Antes da análise propriamente dita, confrontou-se o escândalo político do DF com o espetáculo teatral de origem grega (drama social). Esta abordagem fez-se necessária, porque de acordo com a “análise de enquadramento” todo contexto social deve ser considerado. Posteriormente, realizou-se um breve histórico dos jornais O Estado de S. Paulo e Correio Braziliense, e descreveu-se o novo meio, a internet, já que o corpus foi coletado nos sites noticiosos desses veículos. 

Após armazenamento do material coletado, partiu-se para o levantamento quantitativo e qualitativo. Ao final fez-se a interpretação dos dados. Salienta-se que toda pesquisa seguiu as normas estabelecidas no manual para elaboração de trabalhos acadêmicos estabelecidos pela Anhanguera Institucional[1]

1          TEATRALIZAÇÃO DO ESCÂNDALO POLÍTICO

 1.1      Espetáculo e Drama Social

 A história aponta que o teatro é oriundo das sociedades primitivas, que realizavam cultos e danças às entidades sobrenaturais para garantir a sobrevivência.  Com o passar do tempo, o teatro deixou a característica ritualística e adotou uma conduta voltada para lenda dos deuses e heróis. Na Grécia Antiga, durante os festivais anuais havia apresentações do “coro” (hinos) em homenagem a Dionísio (Deus do vinho).

De acordo com os estudos de Clayton Hamilton, o teatro evolui em três etapas: “dramaturgia da retórica” (o teatro recorria à arte de usar a linguagem); “dramaturgia de conversação” (explorava-se o diálogo e dispunha o cenário para a platéia) e “dramaturgia da ilusão de realidade ou dramaturgia do realismo”. Com o surgimento da eletricidade, a encenação começou a se aproximar da cotidiano. (HAMILTON, 1910, apud, Cobra, 2006).

Os principais gêneros da dramaturgia são a tragédia, o melodrama, a comédia, a farsa, a pantomima e o drama social. Cobra (2006) os conceitua:

O drama da Tragédia apresenta o espetáculo de um ser humano se esfacelando contra obstáculos insuperáveis. A tragédia é um confronto necessariamente destinado à derrota do herói, porque a vontade individual humana é lançada contra forças opostas maiores que ela. Diferentemente da Tragédia, o Melodrama expõe apenas o que pode acontecer não o inevitável […] Uma comédia é uma peça humorística na qual os atores dominam a ação. A Farsa é um tipo de drama escrito com o propósito de provocar riso. É estética e literariamente inferior à comedia; é uma peça humorística na qual os personagens são exageradamente fracos, covardes e impotentes […] Pantomima é peça de teatro ou drama contada por meio de ação e expressão corporal, sem uso de palavras.
O Drama Social o conflito inerente ao drama, a disputa que permite ao espectador tomar partido e se interessar pela representação no palco, encontrou um tema novo no século XIX: o poder econômico, rico e opressor, contra o qual o indivíduo pobre luta em vão […]

A encenação, historicamente, sempre tratou de assuntos que permeavam a religião ou a política. Com o passar dos anos, as práticas sociais passaram a inspirar os espetáculos.

Erving Goffman, no livro A representação do eu na vida cotidiana, descreve com riqueza de detalhes uma perspectiva sociológica, onde se torna possível analisar a vida social.

A perspectiva empregada neste relato é a da representação teatral. Os princípios de que parti são de caráter dramatúrgico. Considerarei a maneira pela qual o indivíduo apresenta, em situações comuns de trabalho, a si mesmo e as suas atividades às outras pessoas, os meios pelos quais dirige e regula a impressão que formam a seu respeito e as coisas que pode ou não fazer, enquanto realiza seu desempenho diante delas (2002, p.9).

A relação entre espetáculo e mídia vem de longos anos. Em 1967, Guy Debord, lançou o livro Sociedade do espetáculo, que promoveu a inquietude dos estudantes franceses. Sua obra defendia que a sociedade moderna não deveria abrir mão da realidade para viver pacificamente o mundo ilusório oferecido pela mídia.

O espetáculo é o mau sonho da sociedade moderna acorrentada, que ao cabo não exprime senão o seu desejo de dormir. O espetáculo é o guardião deste sono. Destituída de seu poder prático, e permeada pelo império independente do espetáculo, a sociedade moderna permanece atomizada e em contradição consigo mesma (DEBORD, 2003, p.21).

Estudos realizados por Sousa, em Portugal, concluíram que as características dos discursos das mídias assemelham-se aos discursos dramáticos. O autor enumera alguns contributos teóricos do drama que são identificados nos meios de comunicação. Dentre eles:

Lutar pela imposição de uma visão do mundo: Esta função do discurso dramático articula-se com a vocação natural dos media para imporem visões do mundo. Remitificação. O discurso dramático, especializado na representação de situação de tensão, pode ajudar a montar um conflito que resolva definitivamente a confusão simbólica dominante. Agitação política. Ao representar situações de tensão e conflito entre as personagens, ao conseguir apelar às emoções e persuadir, o discurso dramático pode constituir um veículo eficaz de agitação política. Não é por acaso que Lenine entendia como uma das tarefas do agitador “dramatizar” os pequenos fatos situando-os ao nível da luta de classes e procurando suscitar nas massas os sentimentos de revolta e ódio de classe (SOUSA, 2003).
Persuasão pela união espectador/ator. Tal era o sentido do “teatro do povo”, gigantescas encenações montadas por diversos regimes pós-revolucionários para assinalar as datas das revoluções, em que este efeito se conseguia convocando o povo para se representar a si próprio num espetáculo (DORT, 1971, p.267-270, apud Sousa, 2003, p.3).
Podemos encontrar estas formas de união na comunicação mediática e políticas atuais, onde se procura frequentemente a identificação entre jornalistas e espectadores ou entre políticos e cidadãos (MESQUITA 2003, p.89-106, apud, Sousa, p.3).

Partindo desta constatação, essa pesquisa visa analisar a relação entre a mídia e o escândalo político. Para isso, serão observados a conduta e o posicionamento dos meios com relação ao fato retratado.

1.2      Relação mídia versus política e seus escândalos

A imprensa e o meio político brasileiro têm uma relação marcada pelo amor e ódio. Há diversos indícios de favorecimentos, intrigas, acordos, denúncias, que culminaram em escândalos.

A palavra “escândalo” é de origem grega e significa “aquilo que pode induzir a erro, pecado ou mau procedimento”. (MICHAELIS, 2008); “O ato ou fato que causa indignação” (SILVA, 2004). Vera Chaia (2000) define escândalo como “ações daqueles que ferem os princípios da moralidade, ética e valores, afetando diretamente suas reputações e provocando uma reação em massa”.

Os escândalos devem ser classificados dependendo do contexto sócio-político. Neste sentido podemos classificar escândalos que envolvem: sexo/comportamento, financeiro/corrupção, e exercício do poder político/falta de decoro parlamentar (CHAIA, 2000, p.15).

O País tem em sua história a tradição de escândalos serem veiculados e até causados pela imprensa, segundo Weltman (2006). O autor descreve que o jornal Correio da Manhã, em 1920, veiculou informações falsas para atrapalhar a candidatura de Artur Bernardes.

Não surpreende, portanto, que uma vez inaugurado a democracia competitiva de massa no Brasil, após a derrocada do Estado Novo em 1945, fosse inaugurada no país também uma fase de escândalos políticos e envolvimento midiático na luta pelo poder (WELTMAN, 2006, p.10).

O livro História da Imprensa no Brasil cita em sua terceira parte, a relação de grandes nomes do jornalismo brasileiro com a política nacional.

Chateaubriand apoiou o golpe militar. Tanto que, ao lado do governador de São Paulo, Ademar de Barros, organizou a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” […]
Quando retirou sua candidatura para presidente da República em 1950, para abrir espaço à candidatura de Getúlio Vargas, Ademar de Barros pagou CR$ 300 mil (cerca de R$ 233 mil) para os Associados por uma entrevista dele, Ademar, realizada pela estrela da casa, o repórter Samuel Wainer. Essa despesa faria parte do acordo entre os responsáveis pela campanha do futuro governador Nogueira Garcez e os Diários. Para que saíssem matérias favoráveis no “mais completo matutino paulista”, slogando do jornal, o grupo político pagaria CR$ 1 milhão (RS 776 mil). Wainer recebeu CR$ 60 mil (R$ 46 mil) pela entrevista de Ademar, segundo revelação de suas Memórias. […]
Chatô reinava absoluto no primeiro lugar do ranking dos débitos oficiais, seguido por Samuel Wainer (Última Hora) e, em terceiro, Roberto Marinho (O Globo), com respectivamente CR$ 106 milhões (R$ 58 milhões) e CR$ 53 milhões (R$ 29 milhões) (MARTINS e LUCA, 2008, p. 180-185).

A conturbada relação permaneceu com a volta da democracia ao País, em 1984. “Com o retorno da democracia, também os principais veículos de comunicação, paulatinamente, aprenderam a ocupar e assumir seu lugar privilegiado no sistema político brasileiro contemporâneo” (WELTMAN, 2006).

O episódio a que se refere o parágrafo anterior foi exatamente a primeira eleição direta para Presidência da República, em 1989, entre os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva – do Partido dos Trabalhadores (PT) e Fernando Collor de Mello – do Partido da Renovação Nacional (PRN). Houve denúncias de que o Jornal Nacional (da emissora Rede Globo) teria editado o debate entre os candidatos, beneficiando Fernando Collor. Durante seu mandato, Collor sofreu denúncias feitas pelo seu irmão Pedro Collor. A Câmara dos Deputados instalou Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que constatou irregularidades. Posteriormente, milhares de estudantes (caras-pintadas) fizeram passeatas e a sociedade exigiu o impeachment de Collor de Mello. Em dezembro de 1992, Collor renunciou ao mandato e teve seus direitos políticos suspensos por oito anos. A partir daí, o vice-presidente Itamar Franco assumiu a Presidência da República.

Nos últimos dez anos, os números impressionam. Segundo dados do Museu da Corrupção[2] são mais de 80 escândalos envolvendo denúncias de corrupção.

 

1.2.1 Relembrando alguns escândalos políticos do país:

Vale salientar, que as informações acerca dos cargos dos envolvidos são referentes à época de cada um dos episódios e também foram coletados no site do Museu da Corrupção. 

  • CPI dos Bingos: Primeiro escândalo de grande repercussão do governo Lula. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) foi instalada, em 2005, para investigar o ex-assessor da Casa Civil, Waldomiro Diniz, acusado de negociar propina. A mesma Comissão passou a investigar diversas denúncias: irregularidades na prefeitura de Ribeirão Preto, durante administração de Palocci; doações de bingos para campanhas do presidente Lula; quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, entre outros.
  • Escândalo Renan Calheiros: Em maio de 2007, Renan foi denunciado por receber dinheiro do lobista Cláudio Gontijo, para pagar pensão a um jornalista, com quem teve uma filha fora do casamento. Em julho, foi suspeito de beneficiar a empresa Schincariol, evitando o pagamento de milhões em impostos ao INSS, além de denúncias de grilagem de terras. Para ampliar as acusações, Calheiros foi denunciado pelo ex-sócio João Lyra, por adquirir ilicitamente empresas de comunicação, em Alagoas. O senador foi acusado de pagamento de propina, corrupção, tráfico de influências, lavagem de dinheiro, exploração de prestígio, sonegação fiscal e formação de quadrilha, porém perdeu apenas a presidência do Senado, mantendo seu mandato.
  • Operação Aquarela: Ocorreu em junho de 2007, e investigava cerca de 920 pessoas suspeitas de cometerem crimes contra a Administração Pública, fraude em licitação, peculato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Dentre os citados estão Benjamim Roriz, primo do ex-governador Joaquim Roriz, Tarcísio Frankin, ex-presidente do BRB, entre outros.
  • Escândalo dos Cartões Corporativos: CPI dos Cartões. Em 2008, o Tribunal de Contas da União decidiu investigar denúncias de gastos desnecessários com cartões coorporativos. O fato envolveu principalmente a ex-ministra Dilma Roussef, a secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, que pediu demissão, mas não foi expulsa do Partido dos Trabalhadores. Como era de se esperar, a comissão foi encerrada e Dilma saiu ilesa.
  • Operação Sanguessugas: Aconteceu em maio de 2006. A PF descobriu uma quadrilha que desviava dinheiro público que serviria para compra de ambulâncias. A fraude acontecia durante processo licitatório e envolveu assessores de parlamentares e funcionários do Ministério da Saúde. A estimativa é de que mais de R$ 100 milhões foram desviados. Em junho de 2006, foi instalada a CPI das Sanguessugas, que investigou 90 parlamentares e 25 ex-parlamentares.
  • Sarney:  Desde 1987, a família tem seu nome envolvido em escândalos de corrupção. No primeiro, foi acusada de fraude na licitação da obra na Ferrovia Norte-Sul, enquanto Sarney ainda era presidente. No ano passado, o senador assumiu que recebia auxílio-moradia de R$ 3,8 mil, mesmo tendo residência em Brasília. Em ato secreto, o neto, as sobrinhas, a ex-nora e os afilhados eram lotados no Poder Executivo; Sarney não declarou bens ao TSE, em 2006; Fundação Sarney teria desviado recursos de patrocínio para empresas fantasmas; “Operação Boi Barrica” denuncia troca de favores com Agaciel Maia. E, no final da história, por nove votos a seis, os 11 pedidos de investigação foram engavetados.
  • Mensalão do PT: O termo “mensalão” foi adotado a partir deste escândalo, que envolveu integrantes da cúpula do PT e outros partidos, além de empresários. O fato iniciou-se em 2005, com vídeo mostrando negociação de propina em licitações, envolvendo o ex-chefe de departamento dos Correios, Maurício Marinho. Este afirmou ter o aval do ex-deputado Roberto Jefferson, que acabou denunciando o suposto esquema. Segundo o ex-deputado, o PT pagava mesada a deputados aliados, em troca de apoio político. Quarenta pessoas foram denunciadas por corrupção, peculato e „lavagem‟ de dinheiro. Foi nesse episódio, que o assessor do irmão de José Genoíno, José Adalberto Vieira da Silva, foi flagrado com dinheiro na cueca.

 Na maioria dos casos, a mídia tratou esses episódios como verdadeiros espetáculos, com características dramáticas, ora trágicas, cômicas ou melodramáticas. Para compreender o roteiro escrito pela mídia (a notícia) é necessário compreender o processo de construção do mesmo.

2          Construção da Notícia

 Os estudos realizados atualmente sobre a influência da mídia no cotidiano da sociedade culminaram principalmente nessas três teorias: a definição dos assuntos que serão abordados naquele dia (pauta) ou agenda-setting; a construção da notícia ou newsmaking e o enquadramento dado à informação ou framing.

 2.1      Agendamento (Agenda-Setting)

 De acordo com Traquina (2003, p. 18), o conceito surgiu na década de 70, quando os teóricos americanos McCombs e Donald L. Shaw realizaram trabalho de campo durante as eleições de 1968. No entanto, o autor relembra que “a hipótese da existência de uma relação causal entre a agenda midiática e a agenda pública já tinha sido sugerida nos anos 20 no livro de Walter Lippmann[3]”.

Em linhas gerais, a teoria do agendamento afirma que a imprensa, no momento em que determina os assuntos que serão pautados naquele dia, automaticamente, deixa de fora outros que poderiam interessar a muitas pessoas. Dessa forma, direciona a sociedade dando relevância àqueles assuntos estabelecidos.

Os mass media, descrevendo e precisando a realidade exterior, apresentam ao público uma lista daquilo sobre que é necessário ter uma opinião e discutir. O pressuposto fundamental do agenda-setting é que a compreensão que as pessoas têm de grande parte da realidade social lhes é fornecida, por empréstimo, pelos mass media. (SHAW, 1979, p.101, apud Wolf, 1999, p. 144).
A imprensa pode na maior parte das vezes, não conseguir dizer às pessoas como pensar, mas tem, no entanto, uma capacidade espantosa para dizer aos próprios leitores sobre o que pensar. O mundo parece diferente a pessoas diferentes, dependendo do mapa que lhes é desenhado pelos redatores, editores e diretores do jornal que lêem. (COHEN, 1963, p.72, apud Traquina, 2003, p.18).

O processo do agendamento possui três elementos. São eles: “agenda midiática”, que são as questões debatidas na imprensa; “agendas públicas”, que são os assuntos levados ao conhecimento da sociedade; “agenda das políticas”, aquilo que as entidades governamentais julgam importantes.

2.2      Construção da Noticiabilidade (Newsmaking)

A teoria refere-se aos valores e critérios destinados à construção da notícia. A rotina dos profissionais que as escrevem reflete-se no processo de construção das mesmas. Os critérios básicos para esta teoria são a “noticiabilidade” e “valor-notícia”. De acordo com Wolf (1999, p.195), a noticiabilidade é “o conjunto de elementos através dos quais o órgão informativo controla e gera a quantidade e o tipo de acontecimentos, entre os quais há que selecionar as notícias”.  Já os valores/notícia compõem a noticiabilidade.

Os valores/ notícia utilizam-se de duas maneiras. São critérios de seleção dos elementos dignos de serem incluídos no produto final, desde o material disponível até a redação. Em segundo lugar, funcionam como linhas-guia para a apresentação do material, sugerindo o que se deve ser realçado, o que deve ser omitido, o que deve ser prioritário na preparação das notícias a apresentar ao público. Os valores/notícia são, portanto, regras práticas que abrangem um corpus de conhecimentos profissionais que, implicitamente, e, muitas vezes, explicitamente, explicam e guiam os procedimentos operativos redacionais (WOLF, 1999).

  2.3   Enquadramento (Framing)

 O emissor, quando transmite a mensagem, consciente ou inconscientemente, escolhe diferentes formas de emiti-la, enfatizando ou não trechos dela. Essa técnica é conhecida como enquadramento do texto.

De acordo com Plínio Marcos Leal (2007), o conceito de framing (enquadramento) surgiu com o sociólogo Erving Goffman, em sua obra Frame Analysis: An Essay on the Organization of Experience. Leal afirma:

O conceito de enquadramento noticioso oferece uma sólida alternativa para analisar a mídia nacional, pois trata com a questão de como a mensagem é organizada, ressaltando as preferências de um determinado enquadramento em oposição a outros. A importância desse conceito está diretamente relacionada à identificação das tendências dos meios noticiosos nacionais e à análise de comunicação com um enfoque que é específico do campo jornalístico (LEAL, p.12).

A “análise de enquadramento” é amplamente utilizada nas análises de campanhas políticas dos Estados Unidos. No Brasil, tem conquistado alguns pesquisadores.  “Tem sido aplicado de forma crescente também nos estudos sobre a relação entre mídia e política realizadas no Brasil”. (Porto, 2002, apud Leal, 2007). Observam-se, principalmente nos textos, os títulos, subtítulos, fotos, infográficos, caricaturas, legendas, fontes citadas, dados, lead e chamadas. Salienta-se que o contexto histórico-social deve ser considerado para que se compreenda o enfoque atribuído à mensagem.

Esse tipo de análise visa aferir de que maneira a mídia está evidenciando determinado assunto. Contudo, já que o agendamento determina “o que pensar”, o enquadramento nos diz “como pensar”.

Embora muitos estudos em agenda-setting tenham mostrado que meios de comunicação nos dizem sobre o que pensar, nenhum tem estudado sistematicamente de que forma os veículos estão nos dizendo para pensar sobre as coisas certas. Que tipos de assuntos, interpretações causais e potenciais soluções os meios estão ignorando e que não deveriam? Onde os enquadramentos se originam e como eles se difundem? Por que os repórteres adotam um dado enquadramento para um problema social e ignoram outros enquadramentos? Quais segmentos da sociedade ganham ou perdem com as decisões de enquadramento dos jornalistas? Por que diferentes públicos aceitam ou rejeitam os enquadramentos dos jornalistas? (MAHER, 2001, p.92, apud, Mesquita, 2008, p. 24).

Para realização da pesquisa de enquadramento é primordial usar análise mista, ou seja, qualitativa e quantitativa. De acordo com Mesquita (2008), aplicá-las confere uma visão mais completa do todo.

3          Contextualizando os meios e o fato

 3.1    Correio Braziliense

O jornal Correio Braziliense foi criado por Hipólito da Costa, em 1808, e era conhecido também como Armazém Literário. “Oposicionista e crítico, o periódico era feito na Inglaterra, mas discutia os problemas da Colônia e atravessava o oceano Atlântico para circular por aqui” (MARTINS e LUCA, 2008, p. 7).

Consta nos registros históricos do Correio Braziliense e no site oficial, que Chateaubriand desafiou Juscelino Kubitschek, que se a capital fosse erguida na data prevista, ele relançaria o jornal. Ambos cumpriram as promessas, e em 21 de Abril de 1960, inaugurava-se a nova Capital e era lançado o Jornal Correio Braziliense. Ainda de acordo com informações do site oficial, o Correio Braziliense é o jornal de maior circulação na região Centro-Oeste e o mais influente do Distrito Federal e Entorno.

 3.2   O Estado de S. Paulo (ESP)

O jornal O Estado de S. Paulo adotou este nome em 1890, antes levara o nome de Província. É um dos jornais mais antigos, em circulação, na cidade de São Paulo.

Em 1875, formando seus quadros com ex-alunos, nascia o jornal A Província de São Paulo, atual Estado de S. Paulo. Em todos eles, registre-se, a presença dos aprendizes do poder egressos da Academia de Direito, que se envolveram com literatura e transferiram para os escritos políticos a estetização da palavra. MARTINS e LUCA (2008, p. 61).

Em 2000 houve a fusão entre os portais do jornal Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e Agência Estado, atualmente Estadão (www.estadao.com.br). De acordo com dados divulgados pelo Ibope, em 2008, O Estadão está entre os cinco maiores jornais em circulação no país.

Justifica-se que o jornal da Folha de S. Paulo foi descartado como objeto de estudo desta pesquisa, por possuir dois sites noticiosos, o que  dificultaria a delimitação do corpus, e também por limitar o conteúdo aos assinantes.

3.3    Internet e Sites Noticiosos

Tudo começou em 1969, quando os americanos, criaram o Departamento de Projetos de Pesquisa Avançada da Agência de Defesa Americana (DARPA), que nada mais era do que uma rede de computadores que serviria como elo de comunicação emergencial, caso o país fosse atacado por inimigos. Mas em 1980, o departamento dividiu-se em Milnet e Arpanet, uma militar e a outra científica, respectivamente. Com o tempo, o nome foi reduzido a Internet e o caráter militar foi perdido, tornando-se popular. A ideia de que os microprocessadores ficariam restritos às empresas e indústrias foi descartada, e hoje, eles fazem parte da rotina domiciliar, educacional e profissional de milhares de pessoas.

Mesmo em seu advento sendo reconhecido, até os anos 90 havia dificuldade de acessar o meio. Somente em 2002, quando foi criado o World Wide Web (WWW), sistema que recupera informações da internet, é que foi possível o livre acesso durante a navegação.

Com isso, o cenário da mídia se modificou. Os jornais existentes iniciou a integração à nova mídia, repleta de recursos e facilidades, adaptando-se às novidades tecnológicas e democratizando a informação. Os veículos dispõem gratuitamente as matérias para um número cada vez maior de leitores da rede.

Pollyana Ferrari (2003, p.39) afirma que os elementos que compõem o conteúdo on-line vão muito além dos tradicionalmente utilizados na cobertura impressa – textos, fotos e gráficos. Na web, disponibiliza-se sequência de vídeos, áudios, ilustrações animadas e infográficos que são chamados de “recursos multimídia”.

A imagem colhida no local do acontecimento é outro recurso multimídia passível de ser utilizado na webnotícia. Mas do que a cor da palavra, a verdade da imagem recolhida no local empresta à notícia uma veracidade e objetividade maior do que a simples descrição do acontecimento (CANAVILHAS, 1999, p.5).

As principais características do jornalismo on-line são: hipertextualidade, não-linearidade, instantaneidade e interatividade.

  • Não-linearidade:  O leitor é quem escolhe a sequência do conteúdo que vai ler. A notícia é arquitetada em blocos, sendo que cada um deles se complementam. Por isso, se o leitor deixar de acessar qualquer um deles, não sofrerá nenhum prejuízo. Nos outros meios, a notícia segue o padrão linear.
  • Hipertextualidade:  Na web é o usuário quem conduz sua leitura por isso, o hipertexto tem como principal objetivo fracionar os textos deixando-os a disposição do leitor. Assim, o público não se vê obrigado e ler o que não é de seu interesse. Segundo Luciana Mielniczuck (2002, p. 3), “pela primeira vez, o processo de produção jornalística não está sujeito às limitações de espaço ou tempo, como no impresso, rádio e TV”.
  • Instantaneidade:  O jornalista pode disponibilizar aos leitores matérias que foram coletadas há poucos minutos. Elas poderão ser lidas no momento mais conveniente para o leitor, porque elas permanecerão publicadas.
  • Interatividade:  O recurso permite ao receptor se comunicar com o emissor. Nessa ocasião, o leitor pode mandar e receber notícias, sugestões e críticas. A ferramenta aproxima o repórter do leitor, e faz com que este se sinta ponte do processo.

 De acordo com dados do IBGE, o Brasil é o quinto país com maior número de conexões à internet. Em se tratando de tempo médio de navegação, os brasileiros são recordistas; em média 49 horas de navegação por mês. (Figura 1)

FIGURA 1 – Comparativo de acesso entre 2007 e 2008.

O provedor Universo On-line, em 1996, lançou o primeiro jornal em tempo real em língua portuguesa. E, este feito é explorado até hoje pelo portal. O veículo utilizava informações das agências de notícias internacionais e matérias produzidas em sua redação.

A primeira dificuldade encontrada pelos profissionais de jornalismo foi a adaptação da linguagem para internet. Por isso, os primeiros jornais digitais pareciam cópias dos meios impressos. O mesmo ocorreu com o surgimento da televisão; as programações seguiam o modelo do rádio, até que fossem feitos os ajustes necessários.

 2000: O jornalismo on-line ganhou destaque no Brasil: apesar de as primeiras experiências na rede terem começado em 1995, o Último Segundo (IG), Folha On Line (Grupo Folha), Estadão (Grupo Estado), Veja Online (Editora Abril), entre outros, começam investir pesado nos noticiários on-line, com redações específicas para produção na web;
2001: O Estadão e Último Segundo vencem o prêmio Ibest pela Academia e pelo Júri Popular, respectivamente, na categoria Revista. As organizações Globo anunciam megaportal Globonews.com. (MOHERDAUI, 2002, p.57).

Vale salientar que os vídeos, com as imagens que culminaram no “Mensalão do DEM” chegaram ao conhecimento da sociedade através do site noticioso Último Segundo-IG.

 

FIGURA 3 – Imagem da página do IG com vídeo  de Arruda e Durval Barbosa.

FIGURA 4 – Imagem da página do IG. Vídeos relacionados à “Operação Caixa de Pandora”.

A amostra desta pesquisa foi coletada na internet, os sites escolhidos para análise foram os dois jornais Correio Braziliense e Estadão, que também possuem a versão impressa, diferentemente do Último Segundo, que só existe na rede mundial de computadores.

 3.4   “Operação Caixa de Pandora”

 A mitologia grega diz que a primeira mulher a chegar à Terra chamava-se Pandora, e que ela fora um “presente de grego” de Zeus a Prometeu. Ela trouxe consigo uma caixa contendo todos os males da humanidade, e que não deveria ser aberta nunca. Porém, Pandora consumindo-se pela curiosidade, característica tipicamente feminina, acabou por abri-la, liberando todos os males do mundo e deixando ao fundo da mesma apenas a esperança. 

Partindo desse mito, a Polícia Federal batizou a série de investigações que realizou no Governo do Distrito Federal de “Caixa de Pandora”. A operação, deflagrada em 27 de novembro de 2009, culminou no maior escândalo político do Distrito Federal.

As investigações envolveram autoridades do Poder Executivo, Legislativo e do Tribunal de Contas do Distrito Federal. Os policiais cumpriram mandados de busca e apreensão no DF, Goiânia e Belo Horizonte, todos autorizados pelo Ministério Público. Foram alvos da investigação: José Roberto Arruda, na época governador do DF; José Geraldo Maciel, ex-chefe da Casa Civil; José Luiz Valente, ex-secretário de educação; Omézio Pontes, ex-assessor de imprensa de Arruda; Fábio Simão, ex-chefe de gabinete. Todos integrantes do primeiro escalão do GDF. Também foram investigados Leonardo Prudente, ex-presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF); os deputados distritais Rogério Ulisses, Pedro do Ovo e Eurídes Brito.

Todo o processo se iniciou em junho de 2009, quando o então secretário de Relações Institucionais, Durval Barbosa, em troca da diminuição da pena, delatou todo esquema de propina ocorrido no governo do DF. Barbosa já respondia a outros 32 processos revelados durante a deflagração da Operação Megabyte, ocorrida durante a administração do ex-governador Joaquim Roriz.

Desde setembro de 2009, o delator era monitorado pela PF e suas conversas gravadas através de escutas autorizadas. A partir daí, Durval disponibilizou diariamente vídeos na internet escandalizando o país. Posteriormente, estes vídeos foram mostrados também na televisão.

Com as festas de fim de ano e o recesso parlamentar, o escândalo que culminou no final de novembro perdeu o fôlego.  Em 11 de janeiro de 2010, a Câmara Legislativa do Distrito Federal reinicia seus trabalhos. A principal tarefa é a análise dos pedidos de impeachment contra José Roberto Arruda, apontado como mandante do suposto esquema de propina. Segundo cálculos da Polícia Federal, o ato ilícito arrecadou cerca de R$ 600 mil de empresas privadas contratadas pelo Governo.

Mas o ápice da crise ocorre na primeira quinzena de fevereiro. No dia 4, Antônio Bento, conselheiro do Metrô do Distrito Federal, foi preso em flagrante por suposta tentativa de suborno ao jornalista Edmilson Edson Sombra. Novo vídeo mostra imagens da negociação entre eles. O acordo era para que Sombra colocasse em dúvida os vídeos divulgados pelo colega Durval Barbosa.   Mas quem é Edmilson Edson Sombra? É jornalista, casado com a promotora Maria Rosynete Lima, que moveu ação civil pública pedindo afastamento dos oito deputados distritais citados. Além de ser proprietário do semanário, O Distrital, é amigo de Durval Barbosa e o foi ele que o incentivou a aceitar a delação premiada. Além disso, também é patrão de Antônio Bento no O Distrital.

Com os últimos acontecimentos, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pediu à Procuradoria Geral da República (PGR) o afastamento do governador Arruda ou prisão preventiva, alegando que ele estaria coagindo uma das testemunhas das investigações. No dia 11 de fevereiro, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) votou o pedido de afastamento, e por 12 votos a dois, foi decretada a prisão e o afastamento de José Roberto Arruda. Wellington Moraes, ex-secretário de Comunicação do governo; Haroaldo Brasil de Carvalho, ex-diretor da Companhia Energética de Brasília; o deputado distrital Geraldo Naves; Rodrigo Arantes, secretário particular do governador, também tiveram pedidos de prisão preventiva acatados pelo Supremo, por suposto envolvimento na tentativa de suborno.

4.        Análise Empírica

 4.1    Da Análise de Conteúdo à Análise do Discurso.

 Análise de Conteúdo (AC) é o conjunto de métodos ou técnicas usadas em pesquisas empíricas das Ciências Sociais. Historicamente utilizada nas pesquisas de comunicação, a análise de conteúdo visa compreender o sentido e o significado da informação, a partir do levantamento quantitativo dos dados coletados.

Desde o princípio do século, durante cerca de quarenta anos, a análise de conteúdo desenvolveu-se nos Estados Unidos. Nesta época, o rigor científico invocado é o da medida, e o material analisado é essencialmente jornalístico. A Escola de Jornalismo de Colúmbia dá o pontapé de saída e multiplicam-se assim os estudos quantitativos dos jornais. É feito um inventário das rubricas, segue-se a evolução de um órgão de imprensa, mede-se o grau de sensacionalismo dos seus artigos, comparam-se os semanários rurais e os diários citadinos. Desencadeia-se um fascínio pela contagem e pela medida (superfície dos artigos, tamanhos dos títulos, localização na página) (BARDIN, 2006).

A necessidade em compreender o que está implícito nas notícias é constante; por isso o uso da análise de conteúdo se faz necessário. Ainda de acordo com Bardin (2006), os principais objetivos desse método visam superar as subjetividades e enriquecer a leitura.

Apelar para estes instrumentos de investigação laboriosa de documentos é situar-se ao lado daqueles que, de Durkheim a P. Bordieu passando por Bachelard querem dizer não à ilusão de transparência dos factos sociais, recusando ou tentando afastar os perigos de compreensão espontânea. É igualmente tornar-se desconfiado relativamente aos pressupostos, lutar contra a evidência do saber subjectivo, destruir a intuição em proveito do construído, rejeitar a tentação da sociologia ingênua, que acredita poder apreender intuitivamente as significações dos protagonistas sociais, mas que somente atinge a projecção da sua própria subjectividade. Esta atitude de vigilância crítica exige o rodeio metodológico e o emprego de técnicas de ruptura e afigura-se tanto mais útil para o especialista das ciências humanas, quanto mais ele tenha sempre a impressão de familiaridade face ao seu objeto de análise. É ainda dizer não à leitura simples do real, sempre sedutora, forjar conceitos operatórios, aceitar o caráter provisório de hipóteses, definir planos experimentais ou de investigação [..] (BARDIN 2006).

Esta pesquisa aplicará uma análise mista, para chegar ao objetivo de verificar o enquadramento da imprensa acerca do escândalo político. Por isso combinará elementos quantitativos e qualitativos. Segundo Mesquita (2008), para chegar a esse objetivo faz-se análises dos termos, das orações e das repetições que constam na matéria. “As palavras não são os enquadramentos em si, mas indicativos importantes das escolhas que os jornalistas utilizam para argumentar suas posições” (MILLER e RICHERT 2001, p.114, apud, MESQUITA, 2008, p.26).

A análise do discurso visa aferir o ato de proferir, de informar o público. Manhães (2009, p.305), diz que o “discurso significa em curso, em movimento. Assim, a discursividade implica a compreensão de que a mensagem é construída no interior de uma conversa e é a concretização de um ato”. A análise de discurso desmembra o texto para verificar como ele foi construído.

Para a análise de discurso, é importante que sejam considerados os sujeitos, suas inscrições na história e as condições de produção da linguagem. Analisam-se, assim, segundo esse domínio de estudos, a relação estabelecida entre a língua e os sujeitos que a empregam e as situações em que desenvolvem o dizer. O analista do discurso busca, portanto, certas regularidades no uso da língua em sua relação com a exterioridade (Frasson, 2007).

De acordo com Ramos (2009), os principais conceitos para análise de discurso crítica são o discurso e a prática social. “O discurso é um modo de ação, onde as pessoas podem agir sobre o mundo e, particularmente, sobre os outros, é também um modo de representação”. Outro conceito importante é a intertextualidade. “O conceito de intertextualidade aponta para a produtividade, para como os textos podem transformar textos anteriores e reestruturar as convenções existentes (gêneros, discursos) para gerar novos textos” (FAIRCLOUGH, p.135, 2001, apud, Ramos, 2009, p.11).

4.2       Corpus da Pesquisa 

Uma das principais características da internet é o espaço ilimitado para construção das matérias. Por isso, ao constituir o corpus da pesquisa observou-se que a quantidade de material produzido pelos sites do Correio Braziliense e Estadão era muito extensa e a disponibilidade de recursos humanos e de tempo eram escassas.

Levando em consideração as regras de homogeneidade e pertinência, o material foi coletado em três momentos. Na primeira amostragem foram analisadas todas as matérias veiculadas entre os dias 27 de novembro a 02 de dezembro de 2009, ou seja, da deflagração da “Operação Caixa de Pandora” até o momento da invasão da Câmara Legislativa do Distrito Federal pelos estudantes. A segunda refere-se à primeira reunião do governo e a volta dos deputados distritais a CLDF, após o recesso parlamentar, ocorridos entre os dias 5 a 9 de janeiro de 2010. A terceira foi entre os dias 8 a 12 de fevereiro, momento em que houve o suposto suborno que levou à prisão do governador José Roberto Arruda.

Toda a amostragem foi impressa para facilitar a leitura e análise. O material coletado no site do Correio Braziliense corresponde a 243 páginas, e do Estadão 195 páginas impressas em formato A4.

A codificação do material seguiu as regras de enumeração, agregação e classificação, para compreender as características de cada jornal analisado. As unidades de registro foram todas as matérias veiculadas sobre o escândalo. No caso do Correio Braziliense, todas as notícias foram disponibilizadas na seção “Cidades”. E no Estadão estavam na seção “Política”.

Quanto à enumeração fez-se uso da frequência em que determinadas palavras foram usadas; quantidades de termos favoráveis e desfavoráveis, que serviram para guiar os leitores, até mesmo com tendenciosidade.

Após armazenar as matérias, teve-se início a tabulação dos dados. Esse processo foi realizado pela seleção de itens observados com um único objetivo: aferir o enquadramento dado às matérias. Para garantir a veracidade e fidedignidade das informações coletadas, fez-se necessária a transferência dos dados para o Microsoft Office Excel 2007, programa de planilha eletrônica que realiza cálculos.    

4.3       Interpretação dos Dados Quantitativos e Qualitativos

  “Claro que ocorrem transgressões sem que estas se transformem em escândalos políticos. A simples suspeita de um escândalo pode desencadear um escândalo. E é nesse sentido que a mídia exerce um papel importante, o de tornar público o escândalo, onde se expressa a desaprovação por aquela transgressão, oferecendo um campo profícuo para a articulação de um discurso moralizador e reprovador (CHAIA, 2000, p.15)”.

Mais uma vez a mídia tinha um prato feito. Não se falava em outra coisa, que não fosse o “Panetonegate” ou “Mensalão do DEM”. Rádios, revistas, jornais e internet, todos numa corrida louca pelo assunto de repercussão nacional. As comparações com o “Mensalão do PT” foram inevitáveis; especulações e muita expectativa.

A sociedade estava diante de um drama social, aquele que permite ao espectador decidir e se interessar pela representação que a imprensa apresentará. Para analisar o roteiro traçado pela mídia, nessa arena social, utilizarei os papéis genéricos propostos por Palmlund, em 1992.

A existência de seis papéis genéricos na avaliação social dos riscos ligados por um conjunto complexo de elos sociais e organizacionais: os portadores de riscos (vítimas que suportam os custos diretos dos riscos); os defensores dos portadores de riscos (que lutam pelo direito das vítimas); os geradores de riscos (protagonistas primeiros dos riscos); os investigadores de risco (que agem em nome da ciência), os árbitros do risco (mediadores, tribunais, agências reguladoras, que agem de fora do palco determinando a extensão, a responsabilidade e a forma de penalidade) e por fim, os informadores do risco (meios de comunicação, mídia em geral) (PALMLUND, 1992, apud, Azevedo, 2009, p.58, grifo nosso).
 
 
                                                                                                        QUADRO 3 – Lista dos papéis genéricos e seus rótulos dramáticos

 Os papéis rotulados acima são dos principais personagens do escândalo político, transformado em espetáculo do gênero dramático pela imprensa. As vítimas são pessoas sacrificadas pelos interesses dos outros, os principais prejudicados; o protagonista é o personagem principal, responsável por determinadas ações; antagonista é aquele que atua em sentido contrário, normalmente se opõem ao protagonista; benfeitores são aqueles que praticam o bem; Deus ex machina é o personagem introduzido repentinamente e que causa reviravolta na trama; o coro é um grupo de pessoas responsáveis pela narração e comentários sobre a história.

Além desses personagens principais é possível visualizar a existência dos coadjuvantes e figurantes.

  • Coadjuvantes –   São personagens secundários na trama. Nesse contexto serão representados por aqueles que tiveram seus nomes envolvidos no esquema;
  •  Figurantes – São os que não são fundamentais no espetáculo.

 

QUADRO 4 – Lista com nomes dos “coadjuvantes”.

 

  QUADRO 5 – Lista com nomes dos “figurantes”

 

Fez-se um levantamento quantitativo dos principais nomes citados em cada um dos meios.

 

 

FIGURA 5 – Gráfico referente às repetições ocorridas em toda amostra.

O nome do governador Arruda foi citado 953 vezes pelo Estadão e 876 vezes pelo Correio Braziliense; o nome de Durval 195 vezes pelo Correio Braziliense e 84 vezes pelo Estadão; Sombra teve 79 vezes menções feitas pelo Correio Braziliense e apenas 32 vezes pelo Estadão. Em relação ao nome do governador “Arruda”, a diferença de incidência entre os jornais foi pequena, apenas 77 vezes. Mas, em relação ao Edson Sombra e o antagonista Durval, a diferença foi maior que o dobro. Isso significa que o Estadão preferiu abordar a pessoa do governador Arruda, enquanto Durval e Sombra pouco foram citados pelo Estadão.

Referindo-se ao item “Justiça”, os nomes contabilizados foram: “Ministério Público da União” (MPU), “Ordem dos Advogados do Brasil” (OAB), “Procuradoria Geral da União” (PGU), “Supremo Tribunal Federal” (STF), “delegado” e “agente”. Todos estes nomes somados corresponderam a 700 incidências no Correio Braziliense e 472 no Estadão.

Pode-se inferir desses dados, que o Correio Braziliense preocupou-se mais que o Estadão, em enfatizar as declarações, explicações e justificativas das fontes oficiais, responsáveis pelas investigações.

TABELA 2 – Incidência de alguns “coadjuvantes”

Palavras Estadão Correio Braziliense
Leonardo Prudente 94 131
Eurides Brito 5 31
Rogério Ulisses 1 5
Marcos Dias (Pedro do Ovo) 2 13
Odilon Aires 2 5
Benício Tavares 1 7
Roney Nemer 1 6
Omézio Pontes 2 15
Fábio Simão 6 16
Marcelo Carvalho 9 8
José Naves 2 0
Berinaldo Pontes 1 2
Benedito Domingos 4 16
Márcio Machado 8 4
Paulo Octávio 99 149
José Geraldo Maciel 8 26
José Valente 5 21
Joaquim Roriz 46 101
José Celso Gontijo 5 3
Luiz França 2 3
Aylton Gomes 1 5
Alcyr Collaço 7 1
Junior Brunelli 10 38
Antônio Bento 19 49
Geraldo Naves 36 30
Rodrigo Arantes 9 18
Luiz Henrique Ferreira 8 1
José Henrique Dares 6 6
Silveira Moura 9 8
Francisco Monteiro 5 3
Haroaldo Carvalho 11 12
Gilberto Lucena 2 8
Domingos Lamoglia 3 6

 

Abaixo, seguem-se trechos da matéria veiculada no site do Estadão, um dia após a prisão do governador José Roberto Arruda. Destacaram-se os termos que enfatizaram o enquadramento:

No seu devido lugar: A prisão preventiva do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, não foi apenas um evento sem precedentes no Brasil democrático […]
[…] Roberto Gurgel, e a sua colega Raquel Dodge sustentavam que Arruda e os seus paus-mandados se empenhavam em descarrilar as investigações […]
Nada menos de 12 deles votaram a favor do pedido de prisão do governador e outros cinco cúmplices para impedir que a organização criminosa instalada no governo do Distrito Federal continuasse a tentar apagar os vestígios dos crimes cometidos […] 
O lodaçal no Distrito Federal […] as máfias do dinheiro e do poder se aliam ou se digladiam com uma desenvoltura explicável apenas pela impunidade de seus capi e capangas. A exposição dos podres de Arruda resultou da sua ambição de se tornar o herdeiro prematuro do chefão a quem servia o arquipopulista Joaquim Roriz, duas vezes governador e aspirante a um novo mandato este ano. Saudou-se a prisão de Arruda porque a Justiça fez o que era necessário. Em sentido literal e figurado, pôs um malfeitor político no seu devido lugar. Se tivesse agido assim antes, certamente Arruda não teria ousado o que ousou (ESTADÃO 12/02/2010 Grifo nosso).

FIGURA 6 – Imagem da matéria citada pelo site do Estadão no dia 12.02.2010.

Em contrapartida, o Correio Braziliense fez questão de destinar espaço para o histórico de Durval Barbosa. Seguem abaixo trechos de matéria que comprova o que foi dito. Os vocábulos que o enquadram foram grifados:

Durval Barbosa, o personagem principal da Operação Caixa de Pandora, sempre foi conhecido como um homem-bomba, de temperamento explosivo e com personalidade para cometer loucuras […] Na administração de Joaquim Roriz, Durval comandava todo o funcionamento do sistema de informática com controles feitos sem licitação por meio do Instituto Candango de Solidariedade (ICS). Por causa desse vínculo considerado criminoso pelo Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT), Durval responde a 12 ações penais, cinco de responsabilidade civil, duas ações populares, seis de improbidade administrativa e 12 civis públicas […]  os processos na Justiça Comum permanecem. Num dos casos, a acusação é de compra de urnas eletrônicas falsas para orientar o eleitor a votar em Roriz. […] Acostumado com investigações policiais, Durval sempre foi apontado no meio político como autor de escutas telefônicas e de gravações ambientais, sem autorização judicial, que supostamente fazia de interlocutores e guardava para ter nas mãos candidatos a quem ajudava em campanhas eleitorais […] Nas denúncias, ele é acusado de lavagem de dinheiro, corrupção passiva e ativa, formação de quadrilha e fraude em licitação […] (CORREIO BRAZILIENSE 28/11/2009 – Grifo nosso).

FIGURA 7 – Imagem da página do site do Correio Braziliense no dia 28.11.2009.

Com Edson Sombra não foi diferente. No dia 11 de fevereiro, o Correio Braziliense (figura 13) veiculou uma vasta matéria sobre ele, incluindo vídeo como recurso multimídia. O vídeo mostra o momento exato da negociação com o ex-conselheiro do Metrô Antônio Bento, preso em flagrante por tentativa de suborno.

FIGURA 8 – Imagem da página do site do Correio Braziliense no dia 11.02.2010.

Abaixo trechos da matéria mostrada na figura anterior, onde o Correio Braziliense explica quem é Edson Sombra e destaca nomes e funções detalhadas de pessoas públicas que também frequentavam a casa dele. Termos referentes ao Edson Sombra foram destacados:

No dia em que negociava suposto acordo com Arruda, o jornalista Edson Sombra – tido como peça-chave no inquérito contra o governador – recebeu em sua casa Eliana Pedrosa, Eri Varela e Mauro Cézar Lima. Orbita ao redor do homem considerado a principal testemunha do inquérito contra o governador José Roberto Arruda, o jornalista Edson Sombra, uma rede de deputados, advogados e personalidades que transitam entre grupos políticos de diferentes correntes. Mentor da delação premiada do ex-secretário de Relações Institucionais do DF Durval Barbosa, Sombra é o cabeça das denúncias que culminaram na crise que abalou o Executivo e o Legislativo no Distrito Federal. Mas ele não age sozinho. Num dos vídeos gravados pelo próprio jornalista durante suposta negociação com o consultor do Metrô – DF Antônio Bento, preso na semana passada pela Polícia Federal (PF) por suposta tentativa de suborno, o próprio Sombra cita quem são algumas das pessoas de sua relação […] Sombra recebia em sua casa a deputada distrital Eliana Pedrosa (DEM), o advogado Eri Varela e o delegado Mauro Cézar Lima, presidente do Sindicato dos Delegados da Polícia Civil do DF(Sindepo-DF) […] Sombra contou a várias pessoas que estava sendo assediado para ajudar a atenuar a crise do governo Arruda. Ele chegou a mostrar o bilhete com a letra de Arruda que recebeu do ex-deputado distrital Geraldo Naves (DEM) a autoridades que estiveram em sua casa, como o deputado distrital Alírio Neto […] (CORREIO BRAZILIENSE 11/02/2010 – Grifo nosso).

4.4       Categorização

O processo de categorização serviu para transformar todo o montante de informações em dados compreensíveis. As categorias aqui empregadas são: “Fato”, “Acusação”, “Defesa”, “Caracterização dos Envolvidos” e “Consequências”.

  • Categoria “Fato” – Como a mídia classificou o suposto esquema de propina delatado por Durval Barbosa e investigado pela Polícia Federal. Nessa etapa foram contabilizados oito subitens (mensalão, esquema, “Operação Caixa de Pandora”, escândalo, fraude, investigação e caixa dois). 

 

FIGURA 9 – Gráfico referente à categoria “fato”

Observando a figura 14, nota-se que o Estadão preferiu usar a metáfora “mensalão” (186). Essa palavra entrou no vocabulário da imprensa a partir do escândalo político envolvendo integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT), em 2005. Faz referência ao pagamento oferecido mensalmente aos envolvidos, como os valores das mesadas eram elevados, a palavra foi para o aumentativo. A diferença dos dois veículos nesse vocábulo é extraordinária, o Correio Braziliense recorreu a essa palavra apenas 22 vezes.

O Correio Braziliense preferiu enquadrar o episódio como “esquema”, que no sentido literal quer dizer “planejamento”, “partes fundamentais do original”, mas nesse contexto faz insinuação da existência de atos ilegais.

A palavra ou expressão em que ambos fizeram uso equivalente foi àquela atribuída pela Polícia Federal, “Operação Caixa de Pandora”, onde o Estadão usou 104 vezes e o Correio Braziliense 182. Seguida das palavras como “escândalo” (92 – Estadão e 63 – Correio Braziliense) e “investigação” (63 – Estadão e 58 – Correio Braziliense).

  • Categoria “Acusação” – Esse aspecto analisou as palavras usadas para evidenciar, elucidar, qualificar e comprovar as denúncias feitas pelo delator.  

TABELA 3 – Incidência de palavras e expressões da categoria “Acusação”

 

Nessa categoria o Estadão deu preferência à palavra “corrupção”, que de acordo com Houaiss (2004) significa “ação ou efeito de corromper, deteriorar, putrefação, depravação de hábitos e costumes”.   Já o Correio Braziliense usou o vocábulo “denúncias” que diz respeito à “ato ilegal, revelação de segredo e manifestação de algo oculto”.

Destaca-se que o Correio Braziliense foi mais “ponderado” no momento das acusações, e preferiu salientar que os indícios estavam em processo de análise e investigação da Polícia Federal, enquanto o Estadão que pré-julgou e informou que o ocorrido se tratava de atos irregulares.

O vocábulo “vídeos” foi citado diversas vezes pelo Correio Braziliense (151) e Estadão (116), mas nesta categoria foi considerado neutro, porque seu uso foi empregado para enfatizar a usabilidade da internet.

  • Categoria de “Defesa” – Na prática jornalística devem-se ouvir todos os lados dos fatos apontados, por isso é necessário dar direito à defesa a todos os citados. Nessa fase observaram-se quais termos foram usados para demonstrar que os citados tiveram espaço para defender-se.

 TABELA 4 – Incidência de palavras e expressões da categoria “Defesa”

 

 Infere-se dos dados que, na maioria das vezes, os principais denunciados na “Operação Caixa de Pandora” recorreram ao termo “apuração” (50 vezes Estadão; 52 vezes Correio Braziliense), seguido da palavra “explicações” (44 vezes Estadão; 38 vezes Correio Braziliense). Enquanto o Estadão usou “em nota” (25), Correio Braziliense utilizou “pronunciamento” (24). Essa diferença pode ter ocorrido pela sede do Correio Braziliense ser na Capital e a proximidade ter facilitado o acesso direto às declarações dos envolvidos. Enquanto o Estadão, com sede em São Paulo, preferiu publicar informações remetidas através de notas oficiais.

Observando todos os termos e expressões empregadas, e considerando o contexto em que foram empregados, conclui-se que os acusados decidiram apresentar suas justificativas somente quando tivessem acesso ao inquérito, para que pudessem conhecer o teor das acusações. Isso porque a Polícia Federal ainda não havia concluído as investigações sobre as denúncias. 

 

 

FIGURA 10 – Gráfico demonstrativo dos principais termos da categoria “Defesa”

As diferenças numéricas entre os enquadramentos dados a acusação e a defesa são extremamente nítidas, o Correio Braziliense usou palavras e expressões de acusações 1323 vezes e para defesa foram apenas 210 aparições, essa diferença chega a ser mais que o sêxtuplo. O Estadão acusou 889 vezes e defendeu 179 vezes, nesse caso a diferença foi quase o quíntuplo. Infere-se que tanto o Estadão quanto o Correio Braziliense destinou maior espaço às denúncias e acusações do que às justificativas de defesa.

FIGURA 11 – Gráfico comparativo entre as categorias “Acusação e Defesa”

 

  • Categoria “Caracterização dos Envolvidos” – Essa parte da pesquisa visa identificar como a imprensa referiu-se aos eventuais envolvidos. Em algumas situações foram usadas palavras como “meias”, referindo-se ao deputado distrital Leonardo Prudente, e “bolsa” ao enquadrar a deputada distrital Eurides Brito. Outra forma utilizada para referir-se a Leonardo Prudente e Júnior Brunelli foi o uso do vocábulo “oração” ou “reza” da propina, para comentar cena de vídeo onde os deputados distritais aparecem abraçados ao delator Durval Barbosa em oração de agradecimento.  

 TABELA 5 – Incidência da categoria “Envolvidos”

 

Nessa categoria os enquadramentos foram diferenciados. Enquanto o Estadão usou a palavra “acusados”, o Correio Braziliense preferiu “afastados”. Outra palavra que demonstra enquadramentos distintos entre os meios foi “foragido”, usada pelo Estadão 37 vezes para referir-se a Wellington Moraes, ex-secretário de comunicação do governo; Haroaldo Brasil de Carvalho, ex-diretor da Companhia Energética de Brasília (CEB); deputado distrital Geraldo Naves e Rodrigo Arantes, secretário particular do governador. Enquanto o Correio Braziliense preferiu o uso da palavra “suspeito” (10), atenuando a integridade dos envolvidos no escândalo.  Em nenhum momento o Correio Braziliense usou os termos “cúmplices” ou “coautores”. Infere-se que o Estadão foi mais incisivo no quesito “culpabilidade”, a partir dos termos empregados.

  • Categoria “Consequências do Episódio” – Em se tratando de denúncias envolvendo o alto escalão do Governo do Distrito Federal, era de se esperar que a imprensa premeditasse o desfecho do ocorrido. Daí a contagem dos vocábulos que remetiam as consequências das denúncias e da tentativa de suborno.

 TABELA 6 – Incidência da categoria “Consequências”

 

O site do Estadão enfatizou em suas matérias o momento da “prisão” do governador Arruda e o site do Correio Braziliense preferiu tratar da possibilidade de “impeachment /impedimento” (168) e das investigações em torno da conclusão do “inquérito” (160).

Enquanto o Estadão prioriza uma punição mais severa aos envolvidos, deduz-se que o Correio Braziliense enquadra as consequências com cuidado, deixando claro que as denúncias permanecem sob investigações e a Polícia Federal ainda colhe os depoimentos de pessoas citadas na “Operação Caixa de Pandora”.  Plácido e Silva (2004) explica claramente o significado da palavra inquérito:

Derivado do verbo latino quartitare, quer exprimir o ato e efeito de investigar ou sindicar a respeito de certos fatos que se desejam esclarecer. Tecnicamente, entende-se o processo promovido com o objetivo de apurar a existência de certos fatos ou de se ter informação exata a respeito dos fatos.
Nele, para execução e cumprimento do objetivo, promovem-se todas as medidas e diligências indispensáveis à verificação ou sindicância pretendida, ou seja, inquirições, perícias ou exames periciais de qualquer natureza. Culmina o inquérito por um relatório, em que se anotam as conclusões obtidas acerca dos fatos sindicados.
Em matéria de crime, o inquérito, que se diz policial, constitui a peça inicial para o procedimento de ação penal.
Para que se lhe dê validade, não se mostrando peça impugnável no sumário penal, é costume fazê-lo assistido pelo órgão do Ministério Público. E, dessa forma, desde que não se tenha fundado em violência ou coação por parte das autoridades policiais, tem valor probante a respeito dos fatos nele esclarecidos.
O inquérito também se diz administrativo, quando aberto por ordem de autoridade administrativa, para evidência de fatos irregulares ocorridos na repartição e para que com ele se apure a verdade sobre os mesmos e a responsabilidade da pessoa que lhes tenha dado causa.
Nem sempre, porém, tem o inquérito a função de esclarecer a ocorrência a respeito de fatos, indicados como delituosos ou faltosos.
Assim, também é promovido para que, se obtenha uma informação precisa a respeito de fatos de ordem social, econômica, política, financeira, a fim de que, pelos resultados obtidos, se orientem as autoridades para a imposição ou instituição de novas regras ou novas medidas. SILVA (2004, p.755 – Grifo nosso).

Como citado anteriormente, o corpus desta pesquisa, foi formado em três momentos distintos. O primeiro momento foi a deflagração da “Operação Caixa de Pandora” (27/11/2009 a 02/12/2009); o segundo foi no início de 2010 (05/01/2010 a 09/01/2010); a tentativa de suborno e prisão do governador (08/02/2010 a 12/02/2010) como o terceiro instante. Isso porque até a data da elaboração do projeto de Trabalho de Conclusão de Curso, esses três instantes foram os mais destacados pela imprensa. 

Até a data de conclusão desta pesquisa o inquérito 650[4] já possuía nove volumes e 87 apensos, cada um com 200 páginas, em média, segundo informações do Supremo Tribunal de Justiça (STJ). Atualmente o documento está em posse do Ministério Público Federal, e posteriormente será encaminhado ao STJ, para o relator do processo, ministro Fernando Gonçalves.

José Roberto Arruda, agora ex-governador do Distrito Federal, encontra-se em “liberdade” desde o dia 12 de abril de 2010, quando o Supremo Tribunal de Justiça, por oito votos a cinco, decidiu revogar o pedido de prisão preventiva. A decisão beneficiou também Haroaldo de Carvalho, Geraldo Naves, Wellington Moraes, Rodrigo Arantes e Antônio Bento, que estavam no Presídio da Papuda, no Distrito Federal.

 

CONCLUSÃO

Em lugar de correr para acrescentar contexto e interpretação, a imprensa precisa se concentrar na síntese e na verificação. Que tire fora o rumor, a insinuação, o insignificante e engraçadinho e se concentre no que é verdadeiro e importante de uma história […] As pessoas precisam de uma resposta para a pergunta: “No que posso acreditar?”. O papel da imprensa então, nesta nova era, é trabalhar para responder a outra pergunta: “Onde está o bom material?”. Verificação e síntese se tornam a espinha dorsal do novo papel de guardião do jornalismo (KOVACH E ROSENSTIEL, 2003, p. 77).

A tarefa primordial do jornalista, em todo mundo, é fornecer informação às pessoas com intuito de despertar o senso crítico e a capacidade de serem livres. No Brasil, os profissionais são regidos pelo Código de Ética dos Jornalistas, composto por 19 artigos que tratam do direito à informação, conduta profissional, responsabilidades, e relações profissionais.

Nesta pesquisa, verificou-se que a teoria de que o jornalista retrata a realidade pautada pela imparcialidade e isenção são mitos. O princípio de lealdade para com o cidadão e de ter liberdade para redigir conforme sua consciência foi deturpado pelo compromisso que visa o lucro, distanciando-se do comprometimento do que é de interesse público.

Isso não significa que os assuntos deixaram de ser pautados, eles são simplesmente denunciados. A corrida pela audiência ou pelo “furo” jornalístico faz com que indícios tornem-se provas contundentes contra alguém.

Lembrando que as prisões de José Roberto Arruda, Wellington Moraes, Rodrigo Arantes, Haroaldo de Carvalho, Geraldo Naves e Antônio Bento ocorreram única e exclusivamente pela tentativa de coação a uma das testemunhas que faz parte das investigações “Operação Caixa de Pandora”, e não pelas denúncias feitas pelo ex-secretário Durval Barbosa.

Como já havia o inquérito das denúncias feitas por Durval Barbosa, a Procuradoria Geral da União pediu a prisão preventiva, que é prevista em lei. Isso significa que os supostos delitos provenientes das imagens feitas por Durval permanecem sob análise do Ministério Público, e posteriormente seguirão para o julgamento. Este processo pode levar anos, visto que até hoje nada aconteceu com relação ao Mensalão do Partido dos Trabalhadores (PT), ocorrido em 2005.

Analisando a cobertura dada ao escândalo político do DEM, percebeu-se que cada um dos veículos construiu suas versões do mesmo episódio. Em nenhum momento nem as imagens e nem os vestígios foram contestados.

Em ambos os jornais, observaram-se que as demais personagens da trama caíram no esquecimento logo após a prisão do ex-governador José Roberto Arruda. Outro fator importante a ser lembrado é a ausência de termos positivos em todas as categorias, observa-se que os termos escolhidos eram em sua maioria negativos ou pejorativos, e às vezes neutros. 

O Estadão foi incisivo em condenar, previamente, aqueles que até o momento são investigados pelos órgãos competentes, e fez uso de termos ofensivos para referir-se a eles. Para o Estadão, o ex-governador é de fato o responsável pelo esquema de propina, que junto aos seus aliados formaram uma quadrilha. Durval Barbosa é o “bandido” que se arrepende e resolve virar “mocinho” e o Edson Sombra é o herói que conseguiu colocar o vilão (Arruda) em seu devido lugar.

Já o Correio Braziliense foi moderado em suas citações em relação aos principais envolvidos, porém ficou nítida a iniciativa de desqualificar a pessoa de Durval Barbosa e colocar em dúvida as verdadeiras intenções de Edmilson Edson Sombra. O veículo fez questão de mostrar a ligação entre Durval e o ex-governador Joaquim Roriz. Contudo, Durval foi apontado como “traidor”; Edson Sombra, o “dissimulado”, em busca dos 15 minutos de fama no espetáculo dirigido pela imprensa. José Roberto Arruda foi enquadrado como político em processo de investigação da Polícia Federal.

De acordo com KOVACH e ROSENSTIEL (2003), citados no início desta pesquisa, para melhorar a prática do jornalismo são necessários observar alguns passos (compromisso com a verdade; lealdade com cidadão; verificação; total independência para cobertura; espaço para críticas; apresentar o que for significativo; liberdade…). Partindo desse princípio, nenhum dos veículos analisados cumpriu literalmente todas estas etapas.

Esta pesquisa não visa denominar qual veículo se aproximou do verdadeiro jornalismo. O fato é que cada um dos jornais expressa em suas entrelinhas e em vocábulos específicos seus verdadeiros posicionamentos e suas opiniões sobre as denúncias de corrupção no Distrito Federal.

 

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[2] http://www.dcomercio.com.br
[3] Lippmann, W. (1922). Public Opinion. New York: Free Press.
[4] O inquérito 650 investiga as denúncias ocorridas durante a deflagração da “Operação Caixa de Pandora”.

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